É cada ideia #2

(…)

Volto para a mesa, olho para o copo, ele olha pra mim, e eu o encaro, aguardando a sua confissão.

Silêncio.

Você colocou alguma coisa no meu vinho?

Ele começa a gargalhar, e eu rio também, mas de desespero: penso que a logística para uma parte da família que mora na Austrália e outra no Brasil virem para meu enterro amanhã não vai ser simples – colocou ou não? Insisto. Se eu morrer, garoto, eu explodo a sua casa com você dentro. Ele ri mais.

Mas até que é bonitinho, o ordinariozinho.

Eu? Respondo, fingindo que tomo o vinho, porém sem abrir a boca quando encosto os lábios no copo (e ele percebendo) – Ah, eu basicamente não tenho certeza se quero namorar, mas se for só pra ficar saindo assim sem nenhum objetivo (aqui faço um movimento esquisitíssimo com os braços tentando ilustrar o “saindo assim sem objetivo”) também não quero – agora ele foge, sem dúvidas, pelo menos não terei que dividir a sobremesa. Não confio em quem não gosta de animais, e não frequento lugares lotados (sobretudo estes em que o dress code é amarrar uma camisa xadrez na bunda – nunca entendi). Tenho a personalidade de uma velha de 80 anos, inclusive. Isso aqui, ó, meu bem, é escova, tá, meu cabelo é bem cacheado, mas é um cacheado, como dizer, feio. Não tem um movimento assim… (aqui faço malabarismos duvidosos com as mãos, como se estivesse tentando nadar dentro de um foguete ao lado da lua, jogando meus cachos assassinados de um lado para outro. Nunca mais beberei vinho. Ou nunca mais fingirei beber vinho).

…Não tenho pretensão de morar na mesma casa do meu marido quando eu me casar, me sinto sufocada.

(Nada parece chocá-lo o suficiente para eu ter o crème brûlée só pra mim).

Só quero viajar e ter meus dois filhos. E você? Quer filhos? – Observo-o como uma completa psicopata à espera da resposta que vai acabar logo com essa farsa de jantar – que termine mesmo, assim vou pra casa dormir.
Quero dois, ele diz.
Não me convence.

Talvez eu vá morar em Portugal, gosto de Portugal, eu continuo. Talvez Austrália, Japão, quem é que sabe? Sou livre, mesmo, se quiser fico, se não, não – tento, com todos os recursos, me insuportabilizar ainda mais. Assustá-lo. Acabar logo com o que vai acabar cedo ou tarde.

E, então, você pega na minha mão toda queimada e cortada, pra não escrever fodida, entregando que eu trabalho num café, como quem sabe que, no fundo, esse meu jeito é só uma forma de não admitir que tudo o que eu quero é atenção, amor, e um beijo seu. Você olha para as minhas unhas que não foram decentemente feitas nenhuma vez no último ano, morde o canto da boca – como um bom ordinário de raça confirmada através de exames de sangue que não se sabe se é sangue ou Whey sabor framboesa–, e diz: tá enchendo demais esse bar. Acho que pode não ser bom pra você daqui a pouco. Vamos comer uma sobremesa ali do lado antes de você voltar pra casa?

Miserável. Estava tão na cara que ia dar merda.

 

 

 

 

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