É cada ideia

E, então, ferrou-se.
Bem eu. Treinada, diplomada, pós-graduada.
Desde a primeira vez eu disse: olha, não sei nem porque baixei esse troço, acho esses aplicativos deprimentes. Pra deixar tudo bem didático, e acabar logo aquela mentira. Vamos ser honestos, aqui? Não ia dar em nada, os dois sabiam.
Bem você.
Todo metidinho a simbologias e simetrias e rolês alternativos e tatuagens e seis o que queros. Bem o tipo que nunca me engana, eu já tô calejada desse tipo, sei muito bem de onde vem, pra onde vai. Quer legalizar todos os meus nãos, próxima viagem vai ser um mochilão na Ásia, eu querendo ou não, tanto faz, você vai, e isso é fato. Gosta de tudo o que eu não suporto, e vice-versa.
E era só um jantar porque eu não tinha mais nada pra fazer naquela quarta-feira. Só pra passar o tempo, comer algo que não fosse ovo mexido com qualquer coisa que tenha sobrado de ontem, seguido de chá “noite calma, abandone o Rivotril, ou seu dinheiro de volta” – preguiça monstra de pedir o meu dinheiro de volta, alguém no mundo pede?
Nem me vesti bem, botei uma blusinha que eu uso pra trabalhar, e que, na verdade, acho que é a única blusinha que tenho em meio a outras 150 no meu armário, e quando dei de cara com aquele “é gel mas num é” no seu cabelo, me senti meio mal, confesso. Nem foquei muito na sua camiseta preta de gola V evidentemente nova, senão minha culpa seria insustentável. Mas percebi, também. E o seu perfume fez eu lembrar que esqueci de depilar a perna. Ainda bem que estava frio, que enfiei uma calça jeans, e que eu, ao menos, passei um batom vermelho para o nosso jantar – minha tática para tentar fazer não olharem para o resto.
Achei que você era mais alta. Sim, acho que pareço mais alta pelas fotos – será que ele me achou gorda?
Seu olho é azul, é isso? Que interessante. Usei a palavra “interessante” para a cor do olho de um cara no nosso primeiro encontro, e desejo ser uma lesma na qual jogam sal para que eu me desfaça e caia derretida no chão. Sim, são azuis, meu avô tinha olhos azuis.
Interessante! – Porque não basta errar uma vez.
Legal, e seus pais fazem o quê? Quem? Meus pais? Do que esse louco está falando?
E você? – Porque eu, no caso, prefiro de saber de você e não dos seus pais – Eu nasci em Londres, moro aqui faz tempo, mas morei 6 meses no Brasil. E foi assim que aprendeu um pouquinho de português? Foi. Mas você veio pra Paris mesmo assim? Vim. Sem estar com ele? Sim. Agora ele foge, imaginando o que foi que fez o meu namoro terminar. E você tem planos? Ah, tô vivendo, escrevendo… Tentando. E você, quais são seus planos?
Muitos.
Hum.
“Muitos” – Bem típico de gente que usa “é gel mas num é”, penso. Odeio “muitos planos”, se são muitos liste-os, ordene-os, enumere-os de acordo com sua importância. Quero detalhes para não cair na sua armadilhazinha já tão manjada. E odeio gel, isso não vai dar em nada, será que já podemos pedir a conta? Seria estranho dizer “legal, então, tá ficando tarde, vamos?”, depois de 2 minutos de conversa? Seria mais estranho ainda pedir a conta, sendo que não consumimos nada?
Você traduziria para inglês os seus textos? Assim eu podia ler, meu português é muito ruim. Ah, acho que não, dá muito trabalho – aqui fui grossa, mas como não era a intenção, sorrio e digo “brincadeira” – porém não estou brincando.
Você pacientemente sorri, e me diz que não tem problema, que então vai praticar o seu português. Acho bonitinho. Será que nossos filhos seriam ruivos?
O que vocês vão querer comer?
Tenho horror dessa parte. Queria estar com ele há anos, conhecer os nossos códigos e gostos e piadas internas típicas de casais que estão juntos há anos: ele saberia o que pedir pra mim, pois me conheceria melhor do que eu mesma, comentaríamos juntos “que delícia”, “que caro”, “tenho certeza que você quer este”, “bora, fechou”, sem ter que fingir, com cara de parede, que está tudo sob controle.
NADA ESTÁ SOB CONTROLE, TUDO É UM ABSURDO, NOS CONHECERMOS POR UM APLICATIVO É INADMISSÍVEL, A VIDA É INACEITÁVEL, VAMOS MORRER UM DIA, SABIA?
Caso essa relação dê certo, penso que daria tudo pra pular para daqui a 6 meses, e não ter que viver esse começo de intimidade zero, que dá dor de barriga, enjoo, tremedeira, suor frio, vesguice, e eu não consigo ser eu.
Você tem alguma preferência? Não, pode escolher. Quer dividir algo? Sim, claro, boa ideia. Você come carne? Tem algo que não gosta? O que acha desses queijos?
Então, olha, tem coisas que eu não como porque tenho medo, mesmo – nunca se sabe o que pode nos gerar bolas mastodônticas fruto de uma alergia até então desconhecida na garganta, calibrar a língua que nem pneu, impedir o oxigênio de entrar nos pulmões e nos fazer ir para o hospital dentro de um carro que berra “Ió Ióóó”; a carne eu como, mas evito porque tenho muitos amigos vegetarianos que estão me convencendo de que eu não presto; e quanto aos queijos, então, é que eu tô meio de regime, e hoje já consumi 5582 calorias, e como meu objetivo é ser a Beyoncé, se eu continuar assim não vai dar certo – queria ter dito isso, mas, pela falta de intimidade, concordo dizendo: “Claro, perfeito, queijos”.
Vou ao banheiro e já volto, tá bom? – esse foi o mais próximo de “sumir” que achei socialmente aceitável de ser feito diante da minha semi-crise de ansiedade.

(Jajá vem a continuação…)

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