Um ano de Paris

Há exatamente um ano eu pisei aqui. Era primavera. Estava sol. Eu me perdia. Era hoje. Há um ano.
Antes de chegar, eu não estava bem fazia bastante tempo. Por diversos motivos, mas, principalmente, porque eu sempre tentei ser o outro.
Fulano se deu bem na publicidade. Ciclano vai. São Paulo, tem que amar. Tem que ficar. Tem que ir. Tem que fazer. Tem que ganhar.
Tem que ter diploma, bater ponto, namorar, casar.
Tem que malhar. Mostrar. Não pode esquecer. Tem que checar. Não pode errar.
E eu sempre fui atrás dos outros e das regras impostas para me encaixar e não ser rejeitada.
Eu tentei, durante toda a minha vida, ser uma filha ideal, amiga ideal, namorada ideal, aluna ideal, mulher ideal. Sempre me pautando nos desejos e expectativas do outro. Muitas vezes, desejos e expectativas que eu mesma criei.
Bom, não preciso nem dizer o resultado, né?
Com 16 anos meu corpo começou a não dar conta da minha própria demanda, e precisei iniciar um processo de terapia e consultas médicas e psiquiátricas, para aliviar a dor em forma de angústia, toc, obsessões, pânico, fobias e sensações que eu nem sei nomear. Até hoje mergulho neste processo de autoconhecimento para buscar o que é melhor pra mim e não para o outro. Ainda sofro só de pensar que posso fazer algo que não seja condizente com o que alguém espera de mim. Não importa quem o “alguém” seja. Se você está me lendo, saiba que tenho medo de você e do seu julgamento. E que a cada texto que eu publico é uma grande barreira enfrentada, porque não paro de pensar no que você pensa até ficar muito enjoada, e ser obrigada a devorar algo com açúcar e mandar mensagem para a minha terapeuta.
Nos últimos anos eu não tinha vontade de sair de casa, pois assim podia me proteger e não correr o risco de expor os meus defeitos ou a minha não compatibilidade com o que eu vivia.
Perdi a confiança no meu corpo, que virava e mexia me dava umas chacoalhadas muito assustadoras através de crises de ansiedade, seguidas de vontade de sumir do mundo a cada coisa diferente que eu tentava fazer. No trabalho, em ambientes públicos, no trânsito, no clube, na academia, no shopping, no cinema, no Parque do Ibirapuera, em algum restaurante, no meio da rua, viagens, tanto faz onde.
Fui parar em hospital. Centros espíritas. Igrejas. Capelas. Tentei acupuntura, yoga, meditação, cortar a carne vermelha e o glúten e a lactose e tomar 10 litros de chá de camomila e florais por dia. Procurei me entupir de bananas, kiwis e ovos não tão cozidos (uma nutricionista-astróloga-cartomante-budista-ortomolecular com a qual me consultei um dia, me disse que essas comidas intercaladas curavam a depressão e “todo o resto, é tiro e queda, mas só funciona se você parar de tomar leite, querida”). Tentei sal grosso pela casa toda e em volta do meu travesseiro. Virei churrasco. Borrifei arruda na cara de todo mundo que se aproximava de mim para eliminar as más energias. Tentei regressão. Pai de Santo. Danças não convencionais.
Tudo.
Mesmo.
E há um ano, ainda soterrada por muitos sintomas, mas me sentindo ao menos bastante amada por alguém que me convidou a largar tudo e viver um sonho de amor em outro lugar, o que eu pensei foi: são muitos anos de sofrimento daqui. E eu já sei como é. Pior não fica. Então vou tentar do lado de lá, vivendo com quem me aceita e me ama do jeito que eu sou.
Fiz o sinal da cruz e vim.
Porque fé nunca faltou.
Mas aí, meu bem, como minha estrada nunca foi reta, e talvez nunca será, os planos já começaram a mudar (bastante) duas semanas antes de eu chegar aqui.
Tinham me convidado pra morar em Paris, eu teria casa, suporte, companhia e muito amor. Meio que me desconvidaram (nunca mais dar notícias deve ser desconvidar, acredito eu?) 15 dias antes de eu chegar aqui, mas já era tarde, estava tudo pronto pra vir.
Me virei nos 30 mesmo com a enorme desilusão, tendo pego uma virose muito forte, e tentando gerenciar uma ansiedade monstra, e arranjei um Airbnb para o primeiro mês em Paris – que eu achei que seria o único mês possível longe do Brasil ou habitando este mundo. Ou eu voltava, ou morreria.
Cheguei sem nada. Sem casa, sem companhia, doente, sem nenhuma voz e quase sem dinheiro (vim com euros contados para 3 meses no máximo aqui).
Na primeira noite em Paris, eu lembro de ter conversado comigo mesma na cama desconhecida, muito ansiosa por não conseguir pegar no sono e não entender que merda eu tinha, de fato, vindo fazer aqui: aguenta só mais 24 horas. Vai passar.
E, para o meu próprio espanto, foi passando, e, assim, passaram-se 365 dias.
Me mudei 9 vezes até hoje. Eu e minhas 3 malas, mochilas e 2 bolsas.
Conheci, por minha conta, pessoas maravilhosas e outras nem tanto. Algumas amizades sumiram, porque quiseram ou porque eu quis que assim fosse, já que a nossa luta não acrescentava uma na do(a) outro(a). Outras vieram me preencher e transformar completamente a minha experiência.
Trabalhei em tudo o que é trabalho. Sofri agressão física em um deles. Fui parar na polícia. Aluguei um quarto na casa de uma pessoa descontrolada, e tive que sair sem rumo dois dias depois de chegar, com as 3 malas, mochilas e 2 bolsas. Morei uma semana num hotel decadente enquanto tentava achar uma casa pra me mudar – passei a primeira noite neste hotel com a lanterna do meu celular nas mãos procurando por “black bugs”, e me vi, tarde da noite, sentada no chão daquele lugar aos prantos, por ter medo de deitar na cama e ser devorada por pulgas extraterrestres ansiosas pelo jantar (eu).
Tive que sair no meio da noite de um apartamento que havia alugado, pois a encanação estourou, e, além disso, dei todo o dinheiro vivo que restava dentro da minha mala (aquele mesmo dinheiro contado para três meses) pro encanador que nem eu sei como fiz pra chamar, porque ele não falava inglês, e, na época, eu não falava francês. Tive uma crise de ansiedade em outro hotel para o qual eu tive que ir depois disso, praticamente sem nada de dinheiro, e ninguém fisicamente ao meu lado pra me fazer companhia.
Fui demitida pela primeira vez na vida de um trabalho no qual achei que eu estava indo muito bem – fui acolhida por estranhos no metrô, porque não conseguia ficar de pé de tanto chorar (neste dia eu só não vomitei na rua de tanto choro porque não sei vomitar, mas os movimentos e os barulhos que acompanham o ato eu fiz de forma profissional). Fui muito bem recebida por muitas pessoas – grandes responsáveis por eu estar aqui ainda –, e muito mal por outras. Me virei como podia, e aprendi francês na rua, nos livros, trabalhando.
Na retaguarda (emocional e material, muitas e muitas e muitas vezes) minha família: mãe, pai, Caxu, Dedi, Pablo. A cada ligação em prantos ou muito feliz por alguma conquista, recebi carinho e amor através da frase: estamos orgulhosos de você. E eu fui indo. Algo me dizia: fica. Fui ficando.
Encontrei, depois de 8 tentativas, uma casa no subúrbio com pessoas do bem onde estou há 7 meses. Mas é aquilo, né: coabitar. Nada muito simples. Trabalho em um café encantador, com uma equipe que virou a minha família. Trabalho duro, ralo bastante, mas amo cada dia passado lá. Conheci, durante o trajeto até aqui, anjinhos que foram amenizando a minha dor e fazendo com que eu gostasse da vida e de mim mesma novamente.
Aprendi a economizar muito. A viver uma vida mais simples com muito menos conforto. A me adaptar a ambientes e hábitos. A respeitar mais o diferente.
E, desta forma, depois desses 365 dias, descobri a mais importante das descobertas até hoje: o quanto sou forte.
Talvez a força tenha vindo de saber que havia algo melhor esperando por mim depois de tanto sofrimento. Dias melhores. Horas mais leves.
Ou talvez isso seja, de fato, o que chamam de “amor pela vida” – lutar com tudo o que a gente tem em mãos para não desperdiçá-la com tanta angústia e falta de motivação.
E se você se pergunta, mas meu Deus, essa menina aí deve ter algum mínimo potencial, coitada, porque num tá numa empresa boa, ganhando bem, casada e etc etc etc, a resposta, mesmo que doa em você (e em mim, porque ainda não aprendi a ligar o foda-se para o que pensam), é: eu tô bem assim, ganhando meu dinheirinho e escrevendo, lutando por um futuro com mais sentido pra mim.
E, sim, eu fui muito corajosa nessa reviravolta que eu dei, mas sem os outros, sem apoio, e sem continuar a terapia e poder ligar choramingando ou gargalhando pra minha família e amigos, nada disso seria possível. Família, obrigada e obrigada e obrigada até o infinito. Vocês são absolutamente tudo pra mim. Márcia, sem você eu talvez não estaria aqui. Obrigada por me ajudar a encontrar a minha melhor versão. Dr. Nelson, obrigada por toda a paciência, e por não me demitir da lista de (im)pacientes que te soterram de perguntas sem nenhum embasamento e lógica, e demandam resposta didática e rápida. Dr. José Carlos, obrigada por ser tão maravilhoso, e também ter torcido por mim e me ajudado tanto até aqui. Robi, Jô, Simona, Mareva, Imane, Laetitia, Adrien, obrigada. Amigos do Brasil que, de fato, torcem pelo meu bem e pela minha felicidade, obrigada. Ex-namorado que me convidou e depois sumiu e nunca mais ouvi falar: obrigada por me trazer até aqui mais rápido do que eu imaginava. Você me deu muita história pra contar. Sou agradecida.
Agora eu sei o que significa ter coragem, e eu sei onde ela pode nos levar: basicamente, para onde a gente quiser – através de histórias talvez nada fáceis, mas lindas de contar.
Porque a força, quando a gente precisa, a gente arranja.
.
E você? O que você faria hoje se tivesse coragem?

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10 respostas

  1. Dri! Que amor! Fazia um tempo que eu não passava aqui, e me arrependo disso já. Que orgulho, espero ter toda essa força que você tem um dia. E que saudade que deu de você ❤
    Continue vivendo cada dia e escrevendo pra gente pq é uma delícia ler seus textos.
    Um abraço enorme e muitos beijos.

  2. Wow! Even though I’m sure the translation to Swedish doesn’t make the text justice it made me cry. So powerful. So vulnerable. So honest. You are such a strong person ❤

  3. Linda Drica! Parabens por mais um texto brilhante! Junto-me ao coro dos seus familiares mais próximos! Sinto orgulho de vc! Quanta experiência!! Quantas histórias!! Bj grande, continue assim, forte como um touro sob essa aparência tão delicada e frágil! Bjs muitos no seu coração.

  4. Drica, queria ter coragem (e din-din) para dar uma chegada rápida em Paris para te dar um abraço bem caloroso! Como não será possível (pelo menos por enquanto), te envio meus Parabéns pela força, pela coragem e tenacidade em fincar o pé e mesmo diante de tantas adversidades, ficar e delimitar seu território. Parabéns por esse um ano que, tenho certeza, valeu por 100. Força na peruca, siga em frente e conquiste sua felicidade. Você merece! Bisous

    • Obrigada, minha querida. Suas palavras sempre significam muito. Obrigada por estar sempre por aqui me acompanhando, mandando recados amorosos e força. Te envio muitos beijos e muito carinho. Muito muito obrigada. Quando vier pra Paris, me dá um toque 😉

  5. O que mais gosto nos seus textos é a tua sinceridade crua, a tua espontaneidade na escrita, que hoje não é fácil de encontrar. É admirável toda sua luta e a coragem que precisou para seguir em frente em outro país, outras pessoas, outra cultura, outra gastronomia, outra moeda, outra língua. Sei lá. Me coloco no teu lugar e penso que eu seria um desastre em Paris. Me mudei de estado há seis anos e já foi um inferno ter que me adaptar. Mas a vida é assim mesmo: quebrando a cara e aprendendo. Também passei pela busca de ser alguém ideal para os outros, e foi uma das piores coisas que já fiz na vida. Continue escrevendo, pois não há melhor sensação do que o apreço da própria consciência. Abraços.

    • Você escreve muito bem, já te falaram? Obrigada pelos elogios e por sua sinceridade, também. Mudar nunca é fácil, a adaptação é dura, machuca, mas olha só: mudamos, e tá tudo bem. =) Se eu sou forte, você também é!
      Obrigada de novo, e um beijo grande,
      Drica

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