Um dia normal

O despertador toca. E toca mais um pouco. E já faz um bom tempo que toca.
Aos pouquinhos, bem devagarinho, vou lembrando que sou um ser humano deitado numa cama, que agora terá que levantar, pois o despertador toca.
Chego a sorrir.
Se eu estava dormindo, é porque dormi. Não tive insônia.
Cavalinhos correm. Meu nariz coça. Onde eu estou? Meu pai fez o café? Sou a Beyoncé, me cubro com ouro, ganho 1 milhão de likes, a textura do meu travesseiro, um campo de jasmim.
Aperto “soneca”, e durmo de novo.
O despertador toca.
Em algum momento (com sorte antes de eu estar atrasada) sento na cama. Junto as mãos, e tento rezar. Durmo sentada, com as mãos unidas, no meio da reza.
Subo as escadas com um olho aberto e o outro fechado, e dou de cara com dois habitantes da república: Bonjour. Finjo que estou feliz em ver gente àquela hora, mas acho que faço cara de nojo.
Continuo me movimentando como uma múmia enrolada em papel higiênico, tateando o corrimão e a parede, e subo para o segundo andar. Vou rezando o Pai Nosso enquanto subo os degraus da escada, porque não consegui fazê-lo ainda na cama. Ouço o barulho do chuveiro. Merda, tá ocupado esse banheiro de mer…
Ai, Deus, desculpa. Me perdoa. Recomeço o Pai Nosso sentada na escada, pois a cada pensamento ruim a reza não vale.
Saio de casa atrasada, e vou comendo meu Belvita durante o caminho até o metrô. Começo as contas: se um Belvita tem 90 calorias, 4 tem x. X vezes 1 dividido por 4. Não, pera. 90 vezes 4 divido por x, tem… não. Não tem.
Não, calma.
Abro o Whatsapp, e mando bom dia pra minha família. Tenho família, não vou mais contar calorias, isso é ingratidão.
Abro o Instagram e odeio todo mundo, inclusive (e especialmente) os meus amigos, por terem vidas tão mais interessantes que a minha, e não me chamarem para as fotos.
Decido que não tenho amigos.
Penso em deletar o aplicativo (já seria a 32a vez que eu faço isso), assim como o Facebook e o Whatsapp, as pessoas que me mandem telegramas, se gostam mesmo de mim. Quero ver, seus amigos da onça, do raio que o parta.
Me sinto sozinha e inconsistente. Tenho saudades dos meus ex-amigos.
Durmo dentro do metrô ao som de Gregory Porter.
Desço na estação de Opéra.
Venta. Venta bastante. Bastante mesmo. Assim que dou o primeiro passo para fora da estação, meu vestido sobe, dançando forró universitário com o vento, fazendo com que apareça para o mundo tudo o que nem meu ginecologista teve facilidade de ver até hoje. Dou um grito e começo a distribuir “putain” pra todos os lados (acho lindo falar palavrão em francês), estapeando meu vestido pra baixo. Na tentativa de apagar o fogo daquela situação constrangedora, movimento o meu braço bruscamente para esconder ao menos a parte da frente da minha (antes só minha) intimidade, com a ajuda do meu computador. Por causa do movimento súbito e inesperado, o objeto que seria de grande ajuda para segurar a dança erótica do vestido, leva um susto, e se atira no pé de uma criança. A criança chora com o computador no pé, eu me perturbo, e choro mais ainda. Os pais dela me consolam, e esquecem da criança, que já parou de chorar há um tempo, enquanto eu continuo chorando.
O show de horrores acaba, a família me acalma, e segue o passeio.
Contemplo, secando as lágrimas, a construção de Opéra. Presto atenção em volta.
Negros. Brancos. Asiáticos. Loucos. Artistas. Comerciantes. Religiões. Compras. Pedintes. Promoções. Cafés. Cigarros. Selfies. Stress. A vida, ué.
Até as pombas.
Sou tomada por serenidade tão poderosa, que não há mais barulho.
Não ouço carros.
Nem vozes.
Nem músicas.
Tudo é lento. O tempo respeita. Todos existem, silenciosamente, em suas missões e lutas. Enxergo partículas de ar. Sou uma monge da paz, distribuo sabedoria aos quatro cantos do mundo, enquanto respiro o perfume de castanhas assadas vindo das ruas ao meu redor.
Nada mais existe, a não ser eu e a cidade. Paris e eu nos deitamos em uma nuvem de plenitude, e nos entrelaçamos em nossas semelhanças, diferenças, expectativas, peles, construções, segredos, perfumes e línguas.
O alarme toca: Entrevista às 10h!
Passa o efeito, e volta o movimento.
9h30. Dá tempo. Entro num café, peço meu latte e saio, apressada. Ao mesmo tempo em que caminho e tomo o meu café, verifico quantos likes eu recebi no último post, babando nas roupas das francesas que passam por mim. Tento controlar a minha saliva que escorre como a de uma hiena ao ver o Simba: os écharpes. Os vestidos. As botas. A pele dessas desgraçadas.
As p-e-r-n-a-s.
Sorrio para algumas. Quando elas sorriem de volta, fico tão feliz e encantada, que me pergunto se sou gay.
Chego na entrevista, e a entrevistadora é tão doce comigo, que eu já quero contar pra ela que estava saindo com o Bernard, mas aí achei ele insuportável e menti, dizendo que queria ficar em casa, mas na verdade saí com o Alex, o que você acha? Quer que eu te mande os prints pra você analisar?
Ok, obrigada, aguardo seu e-mail – digo, querendo falar: você gosta de mingau? Quer comer um comigo no sábado?
Sigo para a biblioteca.
Passo por um café que gosto. Um dia eu tomo quantos quiser. Hoje não dá mais. Não, pera. Se hoje eu já gastei 2,50 no meu latte significa que me sobra y. Y menos um latte igual a z. Z dividido por um latte elevado à uma sobremesa… não, calma.
Chego na biblioteca exausta de pensar, e começo a escrever. Escrevo duas linhas e paro por 40 minutos, relendo as mesmas 2 linhas. Tento me convencer de que não sei escrever. Vejo um rapaz muito bonito, e me questiono se casaria com ele. Depende, respondo. Depende do quê, pergunto. Depende se ele gosta do nome Julie, se não forçaria a barra para eu frequentar lugares lotados, e se dissesse sim a cada loucura que eu inventasse querer fazer. O rapaz olha pra mim, eu sorrio. Ele sorri de volta, e eu perco o interesse.
Não casaria, não.
Passo horas olhando para a tela com apenas 2 linhas escritas, até o momento em que atinjo o meu limite.
Abro o Instagram. Decido que vou seguir o mundo inteiro, distribuir likes para o mundo inteiro, assim quem sabe as pessoas me amam, e eu viro a Beyoncé.
Desisto, enjoada. Por hoje deu. Nem almocei.
Penso em pegar a linha 6 até a Torre Eiffel, assim vejo a tal da Torre, e tiro uma foto bem bonita minha com ela atrás, podendo esfregá-la na cara do mundo – bando de babacas espertinhos em Caraíva, quero ver quem ganha mais likes nessa porra.
Ai, Deus, me perdoa. Não quis dizer isso. Como eu sou incoerente, me desculpa. Céus, que horror.
Recebo um sinal no celular, e, desesperada por aceitação, alucinada por ter sido lembrada, tento controlar os meus olhos que quase pulam pra fora de mim ao checar:
Jantar hoje?
De repente, sou a pessoa mais feliz fresca magra açucarada gata sexy peituda e desejada do mundo. Me faço de difícil por 7 segundos, e decido dizer sim, mas pensando que preciso voltar pra casa às 22h no máximo porque amanhã acordo as 7h. Se eu chegar em casa às 22h, tomar banho e ficar pronta pra dormir até meia-noite, durmo 7 horas. Não, mas preciso de 30 minutos pra mandar minhas mensagens antes de dormir, 40 minutos pra reler todas as mensagens e ter certeza de que eu não escrevi nenhuma besteira, alguns minutos pra rezar, e mais uns 30 pra pegar no sono, então isso faz com que eu durma apenas 4h pra amanhã. É isso? Não, pera. Se eu chegar em casa à meia-noite e pegar no sono às 23h30, isso faz com que… não, calma. Pera.
Não, deixa.

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