Palavras mentem

Eu quis dizer uma coisa, que não era exatamente o que eu tinha pra falar, mas era o único jeito que dava pra escrever sem perder o significado original do que era pra ser dito.
Você entendeu algo que tinha me feito repensar vinte vezes antes de publicar, por ser a ideia que eu mais temia que alguém assimilasse, já que era o contrário da coisa que eu queria falar.
Editei a publicação depois de reler o que eu havia escrito, por ter certeza de que a ideia da coisa que eu tentei passar, não chegava nem perto do mínimo que eu precisava dizer.
Você viu o que eu editei enquanto eu torcia pra você não perceber, e aí entendeu exatamente o contrário da ideia secundária que eu escrevi pra amenizar a primeira confusão. Eu queria apagar o mal-entendido, você leu a permanência do não dito; eu não via a hora daquela angústia passar, você compreendeu a contradição do meu nunca mencionado bem-estar.
Eu não podia dizer mais, porque o menos falava pela falta. Você queria saber mais, analisando as minhas falhas.
Eu me reli, e percebi que as vírgulas que acrescentei mudavam a ideia secundária da coisa que eu queria dizer, e o texto ficava próximo ao oposto da primeira ideia que eu tive que apagar. Você leu a segunda ideia como se fosse uma terceira, entendendo que, tudo o que eu queria dizer, não passava de uma quarta conclusão, que só tira quem não tem no que pensar.
Entrei em um grande desespero quando vi que criou-se, sem esforço, uma nova percepção, que nem de perto se aproximava àquilo sobre o que o texto se tratava, e pensei que uma quinta tentativa poderia amenizar.
Você, contente, compreendeu uma sexta conclusão, onde eu dizia, tão inexperiente, que pedia muitas desculpas, mas eu escrevia tudo aquilo por não ter o que falar.
Decidi, resignada, nunca mais escrever, não me expondo nunca mais a tal sofrimento desnecessário e doloroso.
Saí para caminhar pelas ruas procurando o meu lugar na cidade, no tempo, no espaço.
Até a sua desatenção despertar com tanta intensidade a minha solidão, que nada me curaria se eu não pudesse te falar.
Escrevi e editei a minha angústia, até ter certeza de que era aquilo que eu queria publicar. Li o texto em voz alta, de pé, antes e depois de dormir. Não dormi. Passei mal. Comi demais. Perdi o apetite. Tomei remédio. Me pesei. Lavei as mãos até feri-las. Liguei para pessoas com quem não tinha o que falar. Espremi um limão. Busquei na tela do meu celular uma companhia estúpida que concordasse comigo sem questionar.
Reli minhas palavras descascando cebola, torcendo meias recém-lavadas, tirando pelo de gato do meu casaco velho, chorando com medo de te atrapalhar, me atrapalhando ainda mais.
Revisei as palavras, até delirar e resolver dançar nua, coberta apenas por algumas conjugações de verbos que nunca tive coragem de usar.
Até que, como alguém que tem horas de vida contadas, publiquei meu desabafo agachada atrás de um muro de barro.
Saí correndo.
Fui até a cozinha, segurando com rédeas de aço a minha impaciência. Tentei contar quantos tomates ainda tinha dei comida para o cachorro raspei a grelha do forno botei a louça em ordem cantei Odara noventa vezes sem pausa.
Sem mais criatividade para passar o tempo, comecei a ouvir a voz do meu orgulho me pedindo pra checar.
Vai, olha.
Recitei em voz alta uma poesia que nunca li na vida, com bastante precisão.
Anda, olha.
Tomei um banho de horas, que não tirou nem 1% das bactérias que moram na minha pele.
Larga tudo, e olha.
Se eu não respeitasse aquela voz, corria o risco de pagar o preço da minha decisão com mais infinitas horas de sabão insônia sintomas telas enjoo meias tomates grelhas louças e Odaras, até que o mundo mudasse suas formas e cores, e anjos me rodeassem tentando me convencer de que a morte era aceitável.
Contorci meu corpo inteiro, como quem tenta devorar o espaço no meio das costas, e decidi me reler, só uma vezinha, pra certeza do que acabava de escrever: era aquilo mesmo o que eu tinha pra dizer?
E, assim, ao abrir o meu texto e passar os olhos, cuidadosamente, por cada um dos verbos, sujeitos e objetos que eu mesma criei, me certifiquei, pela milésima vez, de que o que eu publiquei não chegava nem perto do que eu desejava falar: escrevi tudo o que não queria, para quem eu jamais escreveria, sobre algo que nunca falaria.
Conformada com o fracasso da última e de todas as outras tentativas, resolvi nunca mais escrever. Aceitei, envergonhada e arrependida, nunca mais ousar me transformar em texto.
E, então, saí pra caminhar.

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5 respostas

  1. Mas você está ficando hein menina? Deliciosamente ousada em seus escritos e fazendo-nos aguardar com ansiedade pelo próximo. Amei esse texto! Muitas vezes me pego assim também ao escrever. Não imagina a quantidade de textos escritos e no rascunho que me debato inúmeras vezes mexendo e nunca tendo coragem de publicar.
    Drica, um 2018 maravilhoso para você! Que consiga realizar seus sonhos e projetos e que venham mais textos como esse! Bisous

    • Owwwn, como pode a gente não se conhecer ao vivo e eu gostar tanto de você? Mundo moderno louco. Obrigada mil vezes por todos os recadinhos queridos, por ser tão amorosa sempre. Tudo de bom pra você em 2018, e publica SIM! Dane-se tudo. Publica o que você tem pra dizer.
      Bisous, ma chérie. ❤

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