Eu quero sair só

Sábado eu saí às 20h da livraria em que estou trabalhando. Alguns band-aids em cada uma das mãos para dar conta dos rasgos que eu acabei herdando nos dedos – embrulhar livros pra presente demanda uma coordenação que ainda não tenho. Estava exausta, mas agora o cansaço valia mais à pena: a exaustão era de trabalhar, e não de sofrer por ter perdido o último emprego.

Saímos ao mesmo tempo do trabalho – eu e Nicolas. Vai pegar o metrô? Vou, linha 10, e você? Também, vamos juntos.

Fomos.

O choque térmico saindo de um lugar fechado para a rua sempre me lembra de que não estou no meu país. O frio bate no meu rosto e me confirma: aqui não é o lugar onde eu cresci. Dá saudades, mas nem tanto.

Me sinto livre.

Entramos no trem juntos, e eu nunca vi tanta gente que decidiu sair ao mesmo tempo no sábado à noite – com a temperatura à 0 graus -, e resolveu, justamente, pegar a linha 10.

Nos enfiamos como duas sardinhas enlatadas dentro do transporte público, e me espremi entre o Nicolas e um senhor de muitos e incontáveis anos.

Foi o suficiente.

Vou descer na próxima estação, eu disse. Amanhã eu não trabalho, e não quero ir pra casa agora. Nicolas ficou me olhando com aquela cara engraçada dele, mas acho que já está se acostumando comigo. Eu não o convidei. Ele é ótimo, mas eu queria ir sozinha. Sim, me senti culpada por isso depois, óbvio.

Dei um beijinho em cada lado da bochecha dele, e desci na estação seguinte.

Se tem uma coisa que me faz bem, é poder fazer o que eu quiser, na hora em que eu quiser.

Meus pais costumam se preocupar, queriam que eu visse mais amigos, saísse em grupos de gente jovem e animada, e arrisco até a dizer que eles ficariam felizes se eu frequentasse baladas e tomasse umas, mostrando que estou aproveitando a vida, como uma pessoa normal de 29 anos faria.

Mas, pra mim, felicidade não é isso.

Estando sozinha, eu não preciso rir do que não acho engraçado; não tenho que agradar a ninguém;  não preciso explicar que eu não tomo muito álcool porque eu, simplesmente, tenho medo de ficar bêbada, causar uma catástrofe e morrer em seguida; e não preciso reforçar o corretivo. Não saberia dizer o que é mais legal do que isso.

Fui caminhando um pouco sem rumo, prestando atenção nas luzes de natal. Este natal vai ser tão diferente dos outros… Passei pelo “Marché de Noël” de Saint Germain de Prés; pela igreja tão linda atrás dele; pelo Les Deux Magots e Café de Flore. Andei um pouquinho mais, e decidi entrar no Café Louise, porque já conheço a comida e as garçonetes. Eu, inclusive, se fosse homem ou gay, paqueraria uma delas, que é linda demais, e cuja voz é tão doce, que sempre me deixa um pouco demente quando fala.

Ela, provavelmente, chama-se Julie.

Acabei pedindo uma sopa para amenizar o frio. Como a regra de jantar sozinha é tomar uma taça de vinho, escolhi beber uma garrafa de água.

Como é bom fazer o que a gente quer.

A sopa chega com mais queijo do que sopa (o que brilha meus olhos e aquece meu coração), e dois músicos se colocam num pequeno palco instalado na frente da janela do café. Eles se apresentam, e o guitarrista é brasileiro – Tem algum brasileiro aqui?, ele pergunta no microfone. Levanto a mão, e respondo com orgulho e queijo derretido na boca: Eu!

Ele sorri pra mim, faz um jóia com a mão, e eu faço o mesmo, tendo a certeza de que não voltar mais cedo pra casa foi a melhor decisão.

O som começa, e eles vão de Tom Jobim à Amy Winehouse. Isso faz com que eu acredite ainda mais: Deus existe.

Em um determinado momento, entre uma música e outra, o guitarrista grita para mim: E aí, tá bom o som? Muito!, eu grito de volta. Tem mais música brasileira aí?, eu pergunto. Tem várias, ele diz. Posso cantar uma com você?, questiono contra a minha vontade consciente. Claro, vem!

Quê?

Me perguntei por que eu não consigo parar de ser inconsequente comigo mesma um minuto sequer. Por que quando tudo parece controlável, e meu coração bate normalmente, eu resolvo fazer alguma coisa pra despertar minha parte fóbica? O que eu ganho com isso, caceta?

Adriana, você é burra?

Dei uma última colherada na sopa, e caminhei em direção ao palco. Parei na frente dos dois músicos e disse: desculpa, eu nem sei por que pedi pra cantar, eu canto muito mal. Vai ser horrível. E eu tenho medo de púbico. Sabia que para apresentar meu TCC tomei dois calmantes? Acho que não quero mais. Vamos deixar pra outro dia? Obrigada, valeu!

Eles insistem, e a cantora me anuncia no microfone, deixando o caminho sem volta: “Adrrriana do Brrrasil vai cantar uma música pra vocês”.

Mãe do céu.

Eu olho para a minha bolsa, agora tão longe de mim: será que dá tempo de eu virar três gotinhas, apenas, em baixo da língua? Se não, acho que vou desmaiar. Procuro nas mesas próximas algum doce. Daria tudo por uma colherada de um doce, acho que estava começando a ter uma crise de hipoglicemia. Mas eu sempre confundo pânico, hipoglicemia e pressão baixa, então, na dúvida, adoraria fazer um coquetel de sal, açúcar, calmante e morango – pra dar um gostinho.

Mas aí, tão rápido como me apavorei, lembrei: não conheço ninguém aqui.

Eu estava sozinha. Eu nunca mais veria aquela gente na minha vida.

Vai com medo, mesmo, pensei. Em pânico. Com a voz tremida. Ou sem voz. Desmaia se precisar, mas dá um jeito de cair no colo daquele cara gato. Ou da garçonete linda.

Liga, uma vez na sua vida, o foda-se.

Vai.

Você conhece “Chega de Saudade”?, perguntei, já quase sem voz. Lógico! Pô, tava com medo de você me pedir dessas novas, não conheço nada depois de 32 anos aqui, ele disse. Eu também não. Eu nunca conheço nada novo, estou sempre atrasada no tempo, respondi. Vamos nessa música, então.

Cantei.

Meu coração bateu tão forte como quando o avião levantou voo pra vir pra Paris, e eu dentro dele ainda me recuperando de um H1N1, recentemente abandonada por um ex-namorado, me perguntava por que eu tinha nascido. Ou como quando eu vi um rato ao lado do meu pé pela primeira vez. Ou como quando eu gritei com uma chefe abusiva, dizendo que nunca mais voltaria para aquele trabalho, e que ela que se virasse dali pra frente. Ou quando eu tomei a iniciativa de beijar um cara de quem eu estava afim no último dia dele em Paris, afinal dizem que a vida é só uma. Ou quando eu fui demitida pela primeira vez. Ou, então, quando eu entrei em uma das livrarias de que mais gosto, e perguntei, cheia de sotaque e completamente sem jeito: tem trabalho pra mim agora no natal?

A música terminou e o público aplaudiu. Envergonhadíssima agradeci, e cumprimentei os músicos. Você foi corajosa, disse o guitarrista. Eu sei, respondi. Foi uma das primeiras vezes em que eu admiti a minha coragem.

Voltei para o meu lugar, comi uma sobremesa, e paguei a conta. Fui embora do café ao som de “Non, Je ne Regrette Rien” (Deus existe, sim), em direção ao presente que resolvi me dar pela minha coragem: naquela noite eu merecia pegar um Uber pra ir pra casa. Só naquela noite.

 

Anúncios

5 respostas

  1. Seus textos me enchem de esperança!É é isso… Vai com medo mesmoObrigada por melhorar minha segunda-feira!Um abraço, Ana Paula. Enviado do Yahoo Mail no Android

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s