Não que te interesse

Todos os dias eu passo cerca de 2h30 dentro do metrô.
Dá pra sentar na ida porque eu moro na última estação da linha 5, então pego o trem ainda vazio. Na volta pra casa não dá, volto de pé e o trem costuma estar lotado. No transporte público tem de tudo, todas as classes sociais e todos os tipos de loucos que ainda nem foram estudados pela psicanálise, e isso faz eu me sentir muito à vontade. Já vi e vivi de quase tudo dentro do metrô, e é bom que seja assim.
2h30, alguma coisa um pouco fora do monótono precisa acontecer.
É bastante tempo.

Na quinta-feira mesmo, estava me perguntando se eu deveria, talvez, parar na próxima estação e comprar alguma coisa, não sei, qualquer coisa, pra tapar esse buraco que me lembra o tempo todo de que ele está lá. Um casaco, uma luva, um cacho de banana, uma garrafa de vinho, um chocolate, um cartão-postal?

E aí passou por mim uma mãe e suas duas filhinhas pedindo moedas ou comida a todos os passageiros, e eu não tinha dinheiro na carteira, e nem nada de comer na bolsa. Ainda assim pisquei pra filhinha mais nova porque quis alegrá-la de alguma forma. Ela era muito pequena pra uma realidade tão monstruosa. Mas a minha intenção não foi bem aceita – ela olhou brava pra mim, contraiu a toda a carinha que nunca, jamais, deixaria de ser doce, e me mandou pro pior dos lugares com seu olhar fuzilante. Fiquei péssima. Olhei pra baixo, como todos nós, idiotas, fazemos – não teria motivo pra ela gostar de alguém como eu que não tinha nada pra oferecer, e ainda ostentava uma bolsa pesada no colo. Chegando na estação seguinte, a mãe pegou ela e sua irmã mais velha pelas mãos, e antes de sair de dentro do trem e pisar na plataforma, a pequena deu uma brecada, olhou pra trás e enfiou uma melancia na minha garganta, que ficou lá durante o resto do dia: ela piscou pra mim.
Eu sorri, e o sorriso me doeu tanto, que acabei chorando.
A melancia ficou lá. Acho que está até agora em mim.
Essas coisas me pegam de jeito.

Nada mudou.

Continuo pedindo desculpas pra todo mundo quando tenho a oportunidade, acho toda a hora que estão falando mal de mim, e sigo fazendo dieta de segunda à segunda assim como desde que nasci, porque ainda sou a mesma pessoa insegura. Tem dias em que me orgulho de mim, me acho corajosa e bonita. Mas aí chega a hora do banho, me olho sem roupa de corpo inteiro no espelho, e acho que poderia estar muito melhor – me sinto feia e incapaz. Quando sinto saudades das pessoas, como. Como até sentir culpa. No dia seguinte passo fome. Horrível, até pecado, mas acontece.

Aqui fiz amigos, e alguns inimigos também. Desencanei da ideia de querer ser gostada por todo mundo. Ainda tenho umas recaídas, mas no geral, essa parte tá melhor. Tem gente que não gosta de mim, e tem gente de quem eu não gosto. Energia, personalidade, santo, astro. Sei lá, a vida. Não gosto e pronto.
Normal.

Tenho tentado me manter forte, dormir melhor, aprender a viver em comunidade. Tenho tentado fazer carinho nos bichos, comer coisas estranhas, viver a minha juventude da minha forma.
É difícil achar um equilíbrio entre o que eu quero, o que é esperado de uma mulher de 29 anos, o que eu fui ensinada de que é o certo a ser feito, e o que eu não quero fazer de jeito nenhum, mas é preciso fazer.

O café eu continuo tomando, e isso não vai mudar, porque eu não quero que mude. Tomo muito. Sei lá quantos por dia. Água tento 2 litros. Faz bem. Fruta tenho dificuldade, não sou nada fã, mas tenho medo de pegar gripe, então procuro pensar que naquilo tem muita vitamina que vai me salvar do apocalipse.
Aquelas coisas.
Tudo igual.

Dou o meu melhor no trabalho, mas tem horas em que erro feio.
Querer se explicar e não conseguir é muito duro. Tem momentos em que isso é pesado pra mim, e eu não sei se vou aguentar: “Je ne trouve pas les mots”, é a frase que eu mais falo.
Nunca imaginei que ser estrangeiro podia doer tanto.
Dói sim.
Existe bastante preconceito. Não importa ter ou não ter o passaporte francês, o meu sotaque denuncia que eu não nasci aqui, e isso já faz eu ser olhada e tratada de um jeito diferente por muita gente.
Se eu já me perguntei se o melhor não era voltar pro meu quartinho no Brooklin, perto do meu núcleo, e pro meu português de todos os dias?
Você me conhece o suficiente.

Tento poupar a minha família e amigos, e ser madura pra lidar com os meus problemas, mas estar longe às vezes é muito solitário.
Um dia, na hora do desespero, falei com o cachorro.
Botei o coitado na minha frente, e enquanto chorava e cuspia de tanto chorar, tentando explicar em francês o que eu não tinha conseguido dizer mais cedo para um imbecil que me tratou muito mal, o bichinho me olhava. Sem reação, como um bom terapeuta. Falar com cachorro é maravilhoso, porque eles sabem exatamente como agir: olha, querida, eu não vou dizer nada, vou guardar todas essas palavras sem sentido comigo, é segredo, ninguém nunca vai saber, e vou continuar aqui. Não vou me mover. É só me dar aquele negócio de comer e está tudo certo.
Ele tem razão.
Faria o mesmo se eu fosse um cachorro.

Pensei em voltar a fumar, mas desisti, porque depois é um drama pra parar. E meu sonho é ser mãe, então tento pensar na Julie. E também aqui tem o vinho e o queijo e o chocolate, eles dão conta. Tem também a Titi, a gatinha que sempre vem no meu colo me fazer carinho com sua patinha malhada. Adoro a Titi. O nome dela não é Titi, mas eu não sei falar seu verdadeiro nome. Já tentei pronunciá-lo até na frente do espelho, mas não vai. Eu sei que é uma mistura de Chiclete com Guacamole, o que fazer ser algo como Chimouale, mas pra mim é Titi. Talvez um dia, quando eu tiver a minha própria casa, também vou ter uma gatinha, mas ela vai ser chamar Zazá, em homenagem à minha avó. Vovó tinha um bichinho que se chamava Zazá.
Adoro esse nome.
Sinto falta da vovó.

A questão do abandono e de todas as mentiras eu tento tratar na terapia, já ensaiei tantas vezes escrever sobre isso, mas a folha fica branca.
Eu nem lembro como foi, engraçado isso.
Mas tá indo, conheci uns caras, com alguns saí mais de uma vez, com outros esperava que nem tivesse existido a primeira, mas isso é arriscar, lembro que tivemos uma conversa na praia sobre isso, e estou me virando bem.
Aprendi a falar não, e lanço um “obrigada” logo depois pra não parecer grossa. Aprendi a falar sim, também, porque descobri que um sim tem poder de mudar o horóscopo do dia, é milagroso.
Sinto falta do cheiro da minha mãe e do “Oi, pica-pau” do meu pai quando ele chega do trabalho segurando a sua mala abarrotada de papéis importantes e igualmente desorganizados.
Quando estou com minhas irmãs nós brigamos como umas histéricas neuróticas descontroladas, mas quando estou longe, tudo o que eu queria era ter a possibilidade de brigar com as duas ao vivo. Puxar o cabelo bom delas e tentar estragá-los, chamá-las de loucas, horrorosas, gordas (com vontade), e fazer as pazes antes de brigar de novo porque uma de nós pegou o vestido novo da outra sem pedir.

Tenho muita saudade do Brasil, e nenhum escândalo político-econômico-social vai me fazer sentir menos orgulho de ser brasileira.
Sou francesa, mas antes disso, sou brasileira. E, sim, sei sambar. Beijo e abraço com vontade, sorrio, sou gentil.
Já fui pro Rio, conheço tudo, é maravilhoso, Copacabana, Cristo, é tudo nosso, tem que ir (não vou admitir jamais que nunca pisei na terra carioca e que o carnaval me dá frio na espinha. De horror.).

E, então, no meio da guerra de olhares cansados e ameaçadores para ver quem senta na cadeira que acaba de vagar dentro do metrô, me questiono: mas, calma, e se eu nunca mais amar?
Por Deus, eu tenho 29, já podia estar casada e com filhos, eu preciso acreditar um pouco mais nas pessoas. E se eu nunca mais for capaz de abraçar um homem, orgulhosa por ele ser meu? E se eu nunca conseguir o meu apartamento, o meu canto nesse lugar? E se eu não tomasse mais nenhum remédio? E se ninguém nunca me aceitar como eu sou? E se a data da sopa tiver expirado, eu como o quê? E se eu tentasse escrever sobre política, mesmo me sentindo uma mula no assunto? E se descobrirem, um dia, que do metrô até em casa, quando estou à pé, eu falo sozinha tudo o que queria ter dito durante o dia, mas não falei por educação/porque não soube dizer? E se eu viajasse pra Noruega? E se eu tirasse uma foto bem linda minha e enviasse pra você, te mandando pra um lugar mais baixo do que o inferno? E se Deus não existisse? E se eu lesse Dostoiévski? E se o Natal não me desse socos no estômago? E se eu cortasse o cabelo? E se eu fingisse que morar em Paris é ter alcançado o júbilo eterno e esfregasse na cara de todo mundo? E se eu trocar de operadora de celular? E se, só mais hoje, eu pegasse um Uber e nunca mais? Volto pro Instagram e enfio filtro em tudo, expondo uma felicidade exacerbada e lugares maravilhosos que eu nunca vi a cor?

Tenho 2h30 por dia pra pensar sobre isso e achar uma solução.
De Pablo Picasso à La Muette.
De Passy à Bobigny.
Não moro em Paris, você sabia?
Isso não existe. Um dia, eu vou amar alguém.
Meu Deus, isso tudo não estava nos meus planos.
Mas, bom, será que alguma dessas coisas que acontecem, assim, na vida da gente, está nos planos de alguém?

No fim das contas, decidi descer na estação seguinte e comprei um cartão postal. Escrevi tudo o que eu queria, e enviei. Mas prefiro não dizer pra quem.

Claro, não que em algum momento você tenha perguntado.

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11 respostas

  1. Eu te entendo mesmo sem me entender também as vezes. Adorei conhecer um pouco de sua alma que é bem parecida com a minha. Queria ter a coragem que teve!
    Um abraço bem apertado!

  2. Mon Dieu, quantos questionamentos, quanta insegurança, quantas metas a ser alcançadas, quantos sonhos acalentados e quantos a se realizar… Quanta humanidade latente num único ser humano! Dri, adoro ler seus textos e sua alma. Nunca desista e creia: não está sozinha! Beijo

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