noite que segue

A noite era clara.

O cheiro queria ser de carro novo, não fosse o bafo das milhares de histórias que sentaram dentro daquele automóvel em um curto espaço de tempo. Eu segurava um chocolate quente nas mãos, porque o dia era frio e porque me presenteio quando a visão acinzenta e os órgãos trocam de lugar – podia sentir meu cérebro se contorcendo no estômago, o coração nas pontas dos dedos e o fígado explodindo na cabeça.

O motorista queria conversar, e eu respirar. Então eu concordava até com o que eu era contra para não gerar polêmica e mais assunto. Não imaginava que a palavra “aham” podia ser tão útil e ansiolítica, descobri naquela noite.

Eu estava no meu inferno astral, o pai dele tinha morrido. Eu não sabia tomar decisões, ele era Uber, mas prestaria concurso público. Eu cogitei tomar metade do remédio, ele questionou sobre a publicidade. Tive certeza de que tomaria o remédio inteiro, ele perguntou se choveria.

Eu não sabia.

Tem horas em que tudo o que a gente sabe, é que a gente não quer saber de nada. Éramos só nós dois dentro daquele carro, tentando aliviar o peso de saber que éramos só mais dois em meio a tantos outros. Só não pesava tanto quanto ver o rapaz oferecendo amendoim crocante, apenas um real, enquanto estávamos parados no trânsito. Porque não andávamos de ônibus como ele provavelmente fazia? Quem a gente achava que a gente era?

Aham, à direta aqui. Aham, faz seu caminho, pior não fica. Aham, posso abrir o vidro? Aham, concordo. Ah, foi uma pergunta? Eu não sei, realmente.

Aham.

É que quando o meu estômago está cheio de cérebro e meu fígado fica atacado dentro da minha cabeça, fazendo meu coração bater nas pontas dos dedos, eu só sei que isso tudo não orna, não casa, não faz sentido, essa bola cheia de gente em cima, 70% água, e a água que não cai, e a terra que engole o que é meu, o que é seu, o trabalho, as pessoas, e o outro, o outro, o outro, opiniões e julgamentos orquestrando palavras e gestos e batimentos, e o ônibus que eu não peguei enquanto respondia tudo ao contrário do que eu queria.

Aquilo era a vida que eu não vivia.

À direita, aqui, moço. Final do quarteirão à esquerda, tá? Aham. Ah, sobre isso não sei. É, sei lá, pode ser. Realmente não sei de nada hoje, moço, desculpa, só sei que a noite está clara, né?

Bati a porta do carro me perguntando porque eu não peguei um ônibus, mas não soube responder. Dormi pensando na resposta, me culpando por isso e pelo chocolate quente, enquanto meus órgãos buscavam seus devidos lugares dentro de mim.

A noite seguia clara.

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