Bicicleta

Mais do que duas rodas, a bicicleta tinha um tempo bom. Um tempo ruim. Um tempo passado, onde o tempo ainda era hoje, e ainda havia tempo.

O presente foi você quem me deu, com peças tiradas de lugares onde nunca estivemos juntos.

E aquela bicicleta tinha a vida dela. Ela dividia alguns momentos comigo, me levava nas costas pra mostrar uns segredos da vida, e sempre me convencia de que eu não sabia de nada. Era tudo como o tempo queria.

Eu esperava chuva, a mesma que você sempre previa, e lá de trás das cinzas vinha um sol constrangido dizendo que não. E quando minhas ideias me levavam pelas mãos para uma esquina por acaso, onde eu via seu rosto num dia quente, o dia chovia o choro frio de quem entende que a vida não é lógica.

Fizemos planos enquanto a magrela descansava e nos observava encostada num muro pichado com nomes de gente que se amou um dia, e falávamos em tudo, menos em carros, que agora você tem porque os jovens crescem.

Roubaram a minha bicicleta, mas deixaram meu olhar. Aquele olhar jovem sobre as coisas.

Ainda lembro do seu sorriso torto no dia em que me presenteou, e ainda espero te encontrar sozinho e por acaso numa esquina qualquer quando eu estiver à pé usando o vestido que você mais gosta, para você me perguntar o que aconteceu com a bicicleta, e eu dizer que me roubaram – assim como o tempo me roubou você – mas que eu estou bem:

Continuo jovem, apesar de agora andar com as minhas próprias pernas, entendi que a vida não é logica, mas, ainda assim, se há uma coisa na qual não penso, é em ter um carro.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s