Sapatos

Julia dirigia bem, até os machistas concordavam. Mesmo sendo estabanada com as coisas do dia a dia, quando pegava no volante e sentia que a direção era toda dela, Julia sabia bem o que fazer com aquilo. Só ela ainda não tinha entendido a metáfora, mas uma hora entenderia.

Um dia, Julia dirigia – bem, como sempre – e viu Gabriel de longe, numa banca de morangos. Desde quando aquele desgraçado parava pra comprar morangos? E o pior é que ele estava bonito, o cara de pau. Cabelo arrumado, camisa ajeitada, calça da moda. E os sapatos. Que sapatos lindos, que ódio. Sapatos que ela tinha dado de presente pra ele, gastando todo o seu salário mínimo pra ver um sorriso na cara do playboy que a largou pra ser do mundo, de tudo, de todas, menos dela.

Que dor. Que soco no estômago, que chute de sapato que ela mesma comprou na sua própria bunda. Julia queria de volta. Ela queria porque queria. Não Gabriel, que ela já tinha umas conversinhas com rapazes que a distraíam muito bem. Ela queria os sapatos. Ela queria revender aquela porcaria, e reaver pelo menos metade do seu salário mínimo, que a gasolina andava muito cara, a inflação não permitia comprar chia no supermercado, e como ela emagreceria se não conseguia pagar a academia? Aliás, como é que ele tinha dinheiro pra comprar morangos, que andavam tão caros? Ele nem gostava daquela fruta pra gastar com aquilo, e de certo estava comprando pra alguma mulher, só pra fazer charme.

Isso, querida, cai mesmo na dele, assim como eu fiz nos últimos dois anos, mas esquece seu salário, viu? Que o gosto desse infeliz é de rico, e depois que você estiver pobre e louca de amor por ele, o homem te chuta com a ponta do sapato caro que você mesma comprou, e ainda esfrega na sua cara que tem grana pra bancar morango pra outra azarada – que sorte só teve de nascer bonitinha aos olhos dele. Bom, esse aí, também, pega qualquer uma quando está solteiro. Espero-que-só-quando-solteiro.

Acontece que Julia pensou em tudo isso enquanto o carro estava em movimento. Por alguns segundos, o volante deixou de ser dela e passou para Gabriel, de tanto que o mesmo estava presente naquele carro – e ele nunca dirigiu bem. Essa troca não prevista causou um grande desastre, e fez a frente do carro desgovernado se enfiar na traseira de um outro que parou no farol vermelho despercebido pelas mãos do ex-namorado barbeiro – que além de tirar o sálario mínimo de Julia com os sapatos que usava naquele momento, tiraria mais alguns mil reais para consertar aquele estrago.

O barulho da pancada foi ainda mais feio do que a batida em si, daquele jeito que sai gente até pela janela do prédio de outro quarteirão pra arranjar assunto, diante de mais um dia tão monótono no escritório. E se os futriqueiros do outro quarteirão ouviram, que dirá Gabriel, que agora estava tão perto do ocorrido, praticamente ao lado, na banca de morangos.

Começou a choradeira. Julia se pôs a berrar e se descabelar pela batida, dando socos homéricos no volante, quase que estourando este também – pelos morangos, pelos sapatos, pelo salário que não tinha, pela avó que estava doente, pelo seu peso que não baixava por nada na balança, por ser mal amada, por não ter amigos de verdade, pela bronca que levaria dos pais diante da batida… “Oi, tudo bem com você? Você se machucou?”.

A vítima do carro à frente veio checar como Julia estava. Ele não veio brigar, falar que o ex dela era um barbeiro – e que ela era burra por ter ficado com aquele cara durante dois anos -, apontar o dedo na fuça, convencê-la de comprar um sapato caro para ser perdoada pela batida, nada disso. E ele era alto. Demonstrava preocupação. Devia ser bem humorado e inteligente. Era lindo demais. Ele agachou na frente da janela do carro pra ficar na mesma altura de Julia: “Não chora, está tudo bem”.

Julia olhou nos olhos dele, e se viu em uma viagem a Paris com aquele homem maravilhoso, depois do casamento dos dois, que seria na praia. Ela estava chorando, pois tinha levado um tombo de bicicleta na frente do Louvre, e o marido preocupado, bem humorado, inteligente e charmoso estava agachado olhando-a nos olhos, abraçando-a, e até achando graça do jeito sempre dramático da esposa, tentando acalmá-la: “Jajá passa, meu amor”. Será que ela convidaria Maria Eduarda pro casamento?

“Dá licença? Licença, eu conheço ela”. De repente, Gabriel estava na janela do carro batido por ele mesmo, depois de empurrar o futuro marido de Julia pro lado. Ele segurava uma sacola com apenas uma caixa de morango dentro – o playboy sempre foi mão de vaca, mesmo – com um olhar de dó e superioridade, dizendo: “Djulis – que apelido ridículo, ele não se convencia de que ela odiava esse apelido? – eu vi que era você de longe! Precisa prestar atenção! Quer ajuda?”.

Julia, ainda aos prantos, descabelada, sentindo o rosto quente de raiva – mas com um pouquinho de esperança de se casar e não ter que chamar Maria Eduarda pra festa – respirou fundo, juntou o furacão de sentimentos que chacoalhavam todos os seus órgãos por dentro, encheu a boca como se tivesse virado a caixa de morangos dentro dela, e cuspiu tudo de volta, morango por morango, na cara de Gabriel: “Eu quero os sapatos”.

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