Mãos

As mãos sabiam.

As mãos dela que cobriram seu próprio rosto em um momento de pavor horas antes do filme, e que, freneticamente, pesquisaram tudo sobre a vida de um outro homem um pouco antes disso. E as dele que, por manipulação do acaso, encostaram no cabelo da colega de trabalho na festa de confraternização da noite anterior, trazendo às suas mãos uma quentura de horror e satisfação;

Aquelas mãos sabiam.

As mãos dele que hesitaram tanto no primeiro encontro dos dois, suadas, quentes e tremidas, mas determinadas a pegar nas mãos dela pela sempre manipulação do acaso – como era de sua personalidade –; e as mãos dela pintadas de vermelho depois de muito cálculo, que sem pudor nenhum e cansadas de esperar, se colocaram cada uma de um lado do rosto dele antes do primeiro toque das bocas;

Estas mãos sempre souberam.

Feito mãos que querem tocar um piano inventado – perdidas, descontroladas e até humilhadas -, assim estavam as mãos deles dentro daquele cinema antes da consciência saber o que as mãos sabiam. As mãos dela fingindo que o cabelo não ficava do jeito que ela queria para ganhar tempo, as dele encenando aliviar a dor das pernas cansadas da corrida matinal para não ter que. As mãos não queriam se encontrar e admitir uma pra outra;

Mas, ah, como aquelas mãos sabiam.

As mãos dele que já conheciam de cor cada curva do corpo dela, e sentiriam falta delas quando tocassem o corpo esguio da colega de trabalho não encontrando nele os caminhos com que estavam acostumadas. E as dela que aprenderam a massagear ele de um jeito que mão alguma conseguiria, e que não queriam aprender a fazer o mesmo em ninguém mais, mesmo que fosse aquele outro homem, por falta de familiaridade e também de paciência;

Aquelas quatro mãos, infelizmente, sabiam.

Como mãos que colocam na pia um copo depois de virarem tudo o que havia dentro dele na boca, aquelas mãos não sabiam mais o que fazer. Elas já tinham feito de tudo. Não havia mais. Não havia palavra, promessa, gesto ou prosa que pudesse mudar aquilo que as mãos já podiam tocar. Duas eram dor, quatro dor demais. Só que o vazio era tanto, e era tão grande, que dava medo de entrar nele sem as mãos do outro;

Mas as mãos sabiam, e sabiam de um jeito, que não podiam mais esconder.

E foi naquele cinema que eles também souberam. Na hora em que por acaso, sem nenhuma manipulação de ninguém a não ser das mãos, os dedos frios, enrugados e pálidos dos dois se encontraram e se seguraram forte, com a pouca força que ainda restava. Não pela paixão do primeiro encontro, não pela felicidade de estar ao lado de quem se conta as horas para estar, não por prazer, e nem por amor. As mãos se prenderam com força para poderem se soltar depois. Por pura saudade do que viria;

Porque elas já sabiam.

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