Modernidades

“Insira o seu cartão ou ticket, e obrigada”.

.

Ai, não.

Não, não, não.

Púúútaqueopariu. Cadê?

Cadê, cadê, cadê?

Gente, cadê essa droga? O homem de trás me mata.

De novo, caramba. Eu não aprendo, não tem jeito.

Bolsa, carteira, bolso interno 1, bolso interno 2, bolsinho interno menor 1, bolsinho interno menor 2, 3, 4, 5. Nécessaire de maquiagem, celular, estojinho sem nada dentro, bolsinha de coisinhas, óculos escuros, panfleto 1, panfleto 2, buraco embaixo do rádio, bolso da calça, do casaco, bate-peito-perna-cintura, embaixo do banco, ai minha costeeeela, caceta! Peraí, moço, segura aí, não buzina, por favor, eu sei que estava por aqui, eu paguei por isso, e não foi pouco.

Já sei! Ai, ai, ai… deixei no caixa.

Abre a cancela pra mim, por favor?

Não, não vou “estar parando” no meio do caminho, vou parar ali – pode, não pode? Beleza.

Bom, podia ser pior. Pensa sempre assim.

Moço, deixei aqui, não foi? O ticket! Não? Como, não? Eu paguei, moço! Não, não passei em lugar nenhum depois. Aiii, caramba, passei sim. Passei mesmo, não lembrava. Obrigada, moço. Desculpa. Tá, vou sim, valeu.

Quem é ele pra me mandar prestar atenção? Folgado!

Oi moça, tudo bem? Pois é, voltei! Não! Não vou levar a bolsa, sabe o que é, moça? Não, não, eu sei, ela é linda!

5 vezes sem juros?

Bom, já ajudaria, ela é maravilhosa. Tem naquela outra cor? Ai, tentação! Peraí, deixa eu ver.

Amiga, vc viu a foto q eu te mandei? Não baixou? Vou mandar de novo. Sim, tem a preta também, o q vc acha? Sim, tbm acho. É, mereço mesmo. Sim, é hoje. Não, não tenho nenhuma q combine com a roupa, vc tá certa, vou levar.

Moça, vou levar. Tá bom. Não, o presente é pra mim. Sim, CPF na nota, por favor. Quanto, mesmo? Ok.

Ok, ok, ok…. peraí, rapidinho, tô procurando a carteira. Gente, cadê a carteira? Ai, não é possível. Posso colocar tudo aqui? Nécessaire de maquiagem, celular, estojinho sem nada dentro, bolsinha de coisinhas, óculos escuros, panfleto 1, panfleto 2, chave do carro, ticket do estacionamento…

Ticket! Achei!

Moça, achei o ticket! Sim, eu estava procurando que nem doida. Mas a carteira ficou no banco do carro, eu estava na procura, tirei tudo da bolsa, e deixei lá! Já volto, moça, peraí. Volto, claro, segura aí, dois palitos.

Nem sei se precisava mesmo daquela bolsa, deve ser um sinal. A vida sempre dá esses sinais, muito cara. Gente, onde eu estava com a cabeça, não era mesmo pra levar a bolsa. Obrigada, Deus, pelo sinal.

Calma.

Parei no F1, ou F11?

Não, foi F1, certeza, eu até fiz a associação com a Fórmula 1 pra lembrar depois.

Mas, então, cadê? Cadê, cadê, cadê…? Ai, merda, era segundo subsolo! Esse é qual? Puts, tá errado.

Elevador, elevador…

Gente, esse negócio não chega, né? Pois é, parou no terceiro e nunca mais se mexeu. Nossa, muito frio, mudou do nada. Ai, deixa, vou pela escada rolante, mesmo. Tchau! Até mais!

Ok, pronto. Agora F1… Cadê, cadê, cadê…?

Uuuufa! Louvado seja. Carrinho lindo, te amo.

Ué… Bolso do casaco, não. Bolso da calça, não. Bate-peito-perna-cintura. Cadê? Gente, onde enfiei a chave do carro? Ah, vou por no capô mesmo, dane-se. Nécessaire de maquiagem, celular, estojinho sem nada dentro, bolsinha de coisinhas, óculos escuros, panfleto 1, panfleto 2, ticket do estacionamento…

Não, tem que estar aqui.

Bolsos internos, bolsinhos internos 1, 2, 3, 4, 5… Não.

Piada. Pi-a-da.

Não, não, não.

Não, não pode ser. Merda. MER-DA!

Não, moço, não precisa, tá tudo bem. Vai passar. Não, é meu rímel que borrou, não me machuquei, não, obrigada. Não quero ajuda, eu quero a chave, eu não tenho como entrar. Moço, continua a sua ronda aí, olha, aquele cara tá na contramão, fala lá com ele, e me deixa aqui? Jajá passa. Obrigada.

Escada rolante 1, escada rolante 2, loja da bolsa.

Oi, voltei! Não, moça, então, eu deixei a chave do carro aqui, não deixei? Sim, depois eu volto pra bolsa! Ok, não, é rapidinho. Eu preciso abrir o carro pra pegar a carteira, entendeu? Sim, sim. Eu sei, moça, é linda mesmo. Aham. Sem juros, lembro. Não, eu sei. Sim, sem dúvidas, o tecido é ótimo. Moça, eu realmente preciso ir lá, mas já volto. Imagina, sem problemas, eu entendo. Não me machuquei, não, é o rímel que borrou, achei que tinha tirado, esqueci. Bom deixa eu ir lá, moça, já venho, tá bom? Ok, tá bom. Sim, jajá.

Afff, já sim, a-ham. Espera sentada, mulher chata.

Ai, tadinha. Pensamento horrível, judiação, só está fazendo o trabalho dela. Trabalhar em loja é tão difícil, como eu posso falar assim? Que maldosa, eu. Desculpa por telepatia, moça.

Segundo subsolo, F1, cheguei.

Há, de primeira.

Chegueeei! Nem acredito!

Céus, que benção.

Eu tenho a chave do carro, tenho ticket do estacionamento, tenho carteira, não tenho bolsa que eu pagaria pro resto da minha vida.

Gente, que felicidade. Sou privilegiada.

Celular, Waze: ca-sa.

Ca-sa.

CA-SA.

Não tem asa, é CASA!

Não tá rolando, tem que escrever pra essa droga funcionar.

Estamos prontos? Sim! Vamos. Vamos!

.

“Este cartão ou ticket venceu o tempo limite de pagamento. Por favor, dirija-se ao caixa mais próximo, e obrigada”.

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