Uma vida

Não era uma ressaca prevista, daquelas de quando, na juventude, acordava depois de uma noite de cachaça e cigarros sem filtro.

Era uma ressaca sem sentido. Da vida.

Um cansaço profundo, que de tão profundo, fazia com que ele virasse de um lado para o outro na cama, ajeitando o travesseiro das mais diversas formas para se sentir acomodado, mas que não era o suficiente para ele se entregar ao sono. As frestinhas de luz que passavam pelos cantos laterais da persiana diziam que ainda era noite, mas logo seria dia. Um pesadelo a olhos nus.

Ele não queria e não deveria estar tão preocupado com aquelas planilhas e com a apresentação do dia seguinte. Ele nem gostava daquele trabalho e daquelas pessoas. Aquilo fazia mal pra ele. Mas o dia seguinte poderia ser definitivo para uma promoção e um aumento de salário, e isso sim era importante.

Um dia ele se mudaria daquele lugar. Ele moraria perto da natureza, longe do stress da cidade grande. Ele se dedicaria mais ao livro que queria publicar, e voltaria a correr. Não sairia do trabalho depois das 18h. Namoraria. Teria filhos. Sorriria um sorriso sincero.

Adormeceu.

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Dois anos se passaram desde aquela noite praticamente em claro, e da apresentação do dia seguinte – ele calculou enquanto fazia a barba. Ele foi promovido e o aumento salarial consequentemente veio, rendendo a ele um carro novo, uma TV maior, e o sonhado reconhecimento da sua família e amigos.

Mesmo assim, a ressaca ainda existia. Visitava ele sem avisar, dizendo através do mais dolorido silêncio que nada daquilo fazia sentido, fazendo com que ele caísse num buraco sem fim, feito de nada. Ele estava aprendendo a viver com a companhia daquele sentimento, cada vez mais frequente.

Mas um dia ele ainda se mudaria daquele lugar. Moraria perto da natureza, longe do stress da cidade grande. Ele escreveria o seu livro e voltaria a correr. Não sairia do trabalho depois das 18h, e namoraria. Teria filhos. Sorriria um sorriso sincero.

Olhou no relógio e começou a se apressar. Pegou sua mochila com a mão direita e jogou em um ombro, com a mão esquerda pegou o computador e o colocou embaixo do braço. Bateu a porta de casa pois já estava atrasado para mais uma apresentação que poderia ser determinante na sua carreira.

Um dia as coisas seriam diferentes.

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