Depois daquela conversa

Depois daquela nossa conversa longa, tão longa que me fez perder a noção das horas, fiquei pensando muito no que foi falado. Se você acredita em mim, estou pensando em tudo aquilo até agora.

E se eu te disser que já sofri pelos exatos mesmos motivos que você, e já senti cada descrição que saiu da sua boca naquela noite cheia de trovoadas e obscuridades que só nós sabemos? Acho que o nosso maior defeito – se é que defeitos existem, e não são apenas invenções nossas para aceitarmos as coisas que julgamos erradas – é o de vivermos além e fora do nosso tempo (se é que este também existe).

O não aceitar o passado e querer desesperadamente agarrar o futuro com as mãos, arrancar-lhe o embrulho que não nos permite contemplá-lo, como se fosse o presente, e devorá-lo como se fosse doce nas mãos de criança, é o que causa nossa inquietude e desespero. Por que simplesmente não aceitamos? Por que não conseguimos viver o agora, a nossa era, a nossa carne e nosso hoje, e por que queremos tanto o que não é possível pegar nas mãos e ser controlado? Seria esta uma forma de nos enganarmos pelo medo da morte?

Dizem que quando a missão do ser – qualquer que seja este – acaba, então a morte o leva embora. Talvez não aceitemos isso, e preferimos não sermos felizes, continuarmos nos enganando, com medo de que a felicidade nos traga a morte… como te soa esta teoria? Plausível?

Mas olha só como somos maldosos com nós mesmos: queremos ser infelizes pelo medo do que a felicidade pode nos trazer de bom, e, depois, de ruim (que seria, neste caso, a morte). Acreditamos que não temos sangue frio suficiente para lidar com a plenitude, e, assim, buscamos nos boicotar ao máximo para não morrermos, e continuarmos vivendo infelizes, mas ao menos vivendo.

Ao menos viver…  mas, isso é vida? Então é isso o que chamam de viver? É a vida, ou morremos e não estamos sabendo?

Hoje, deitada no sofá e olhando o céu pela janela, resolvi que quero ser feliz, mesmo que isso me traga a morte. Você não acha que vale mais a pena tentar encontrar logo o que nos faz plenos, e morrer sorrindo depois – como uma bela flor branca deitada no jardim depois de uma missão cumprida – do que viver feito erva daninha, cabisbaixa e venenosa, obscura e triste, e não morrer nunca mais? De que adiantaria? Pense nisto e me dê uma resposta.

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Naquele dia depois da nossa conversa, voltando a pé na chuva em direção ao meu carro, vi pessoas indo e vindo, vi gente sorrir, vi gente chorar, vi gente correndo, gente parada, luzes acesas, conversas ao vento, pingos gelados no meu rosto. Vi vida, como há muito não via. Eu arrisco dizer que vi o ar que entrava e saía dos meus pulmões – tanto o vi que me senti apaixonada por ele assim que entramos em contato um com o outro. Há quanto tempo eu não via uma cena tão bonita… naturalmente bonita, sem banho, sem perfume, sem batom. Apenas a cena do jeito que ela nasceu e depois morreu. Acho que, naquele momento, meus olhos resolveram parar de olhar o futuro e o passado, e deixaram o presente lá, na frente deles, com embrulho e tudo, só para ser contemplado e sentido. Devagarzinho, sem pressa… Essa é a graça da vida, afinal, não é?

Reflita sobre isso tudo e me diga o que acha. Esta é a minha teoria, quero saber da sua.

Com amor.

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Categorias:Reflexões, Vida

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